De tempo e charretes (por Joana Darc Ribeiro)
Meu único medo é passar pelas coisas e não vê-las.
João Antônio
Uma das imagens mais antigas e dolorosas do tempo é a de Cronos devorando seus filhos. Na luta entre vida e morte, nessa imagem mitológica Cronos é quem leva a melhor. Seu gesto e sua face nos têm chegado, no mais das vezes, horrendos e assustadores como na pintura de Goya, “Saturno devorando seu filho”. Mas o tempo também pode ser louvado amistosamente pelo homem, embora este saiba que da pisada desse deus jamais poderá se livrar. É o que encontramos na “Oração ao tempo”, de Caetano Veloso. Nela, o tempo é caracterizado como “um dos deuses mais lindos”, pois é um “compositor dos destinos”, um ser inventivo, “um senhor tão bonito/ quanto a cara do meu filho”, afirma o eu da canção. É em “Oração ao tempo” que o eu faz o pedido que todos nós certamente um dia fizemos ou desejamos fazer: um acordo de viver o tempo da melhor forma possível, de obter o “prazer legítimo”, mesmo quando “tiver saído para fora do teu círculo”, sabendo que “não serei nem terás sido”, pois “ainda assim acredito/ser possível reunirmo-nos num outro nível de vínculo”.
Outro dia, sentada em um banco de rodoviária, numa longa espera de um ônibus que nunca chega no horário marcado, a lembrança da referida obra do pintor espanhol, do texto de Caetano e a minha espera se entrelaçaram de tal modo, que minha ansiedade de voltar para casa foi atenuada por causa de uma imagem do tempo personificada numa charrete parada por ali entre os ônibus que iam e viam, numa corrida incessante para não serem devorados por Cronos.
Nada melhor que uma rodoviária para observamos as várias faces do tempo, seja na pressa das pessoas, no barulho de gentes e coisas, seja nos reencontros, nas despedidas, nas conversas que se ouvem aqui e ali sobre o passado, as lembranças, e sobre os projetos. Nada melhor que uma rodoviária para sentirmos a presença do tempo engolindo seus filhos, jovens e velhos, na faina diária dos motoristas, dos atendentes de guichê, dos funcionários dos restaurantes e lanchonetes, das lojinhas de souvernir , em cumprir os horários, em prestar o melhor atendimento, mesmo que na face dessas pessoas o que notamos às vezes é um olhar carrancudo, por estarem ansiosas para cumprir suas tarefas e também voltarem para casa. Nada melhor que na rodoviária para sentirmos também a face do tempo como diz a canção de Caetano, como um senhor lindo, com a infância no colo dos pais e dos avós, a adolescência que grita esfuziante nos gestos dos namorados, o gosto de um sorvete que saboreamos durante as inevitáveis esperas, a alegria ruidosa de quem chega e atrai todos os olhares. Nada melhor que na rodoviária para percebemos que o ritmo do tempo é contínuo e diversificado, às vezes harmonioso e tranqüilo, às vezes descompassado e agressivo, mas nunca neutro ou indiferente ao que vive e passa.
Foi do banco onde eu estava que vi uma charrete estacionada a alguns metros dos boxes dos ônibus e do estacionamento dos táxis. Ali, parados, sob um sol escaldante, a charrete e o cavalo driblavam o tempo da espera. Ele, concentrado, tentava encontrar em meio à grama ressequida um pouco de folhas verdes. Ela, como objeto a ser conduzido, obedecendo os leves e curtos movimentos do animal, ensaiava um ritmo em marcha lenta. O dono da charrete, um senhor de mais ou menos 60 anos, andava próximo aos ônibus, parecendo à procura de algo. Ao passar por mim, vi em sua algibeira um bordado com a seguinte inscrição: “charrete-táxi”. No mesmo instante perguntei a um funcionário da lanchonete da rodoviária, um jovem de uns 14 anos, vendedor de picolés, que estava sentado ao meu lado, se a charrete-táxi era requisitada. Ele disse que sim, mas muito raramente. O que o dono daquele veículo transportava mesmo eram latinhas de refrigerante, que vendia para serem recicladas. Enquanto a charrete e o cavalo inseriam em meio ao movimento ruidoso dos carros e das pessoas as marcas do passado dos transportes, com o que ele tem de pitoresco e contrastivo em relação aos veículos mais modernos, o dono da charrete-táxi, com seus cabelos brancos, seu chapéu de palha, sua camisa xadrez, suas botinas já gastas, catando latinhas, tentava driblar o presente sempre adverso à sua idade e inserção social.
Mas ainda que por necessidade, o de certamente aumentar a sua renda de aposentado com o dinheiro da venda dos objetos descartáveis, seu gesto me pareceu inseri-lo no tempo presente com certo orgulho, com certa singularização de seu ofício, como uma espécie de resistência ao que as mudanças operadas pelo tempo da técnica, da cultura do descartável, da novidade a todo custo, têm nos impingido. Ainda que por necessidade, o charrete-taxista pareceu-me ter feito um acordo com o tempo ao não imortalizar sua charrete nos salões dos museus ou no limbo de um ferro velho, nem de se auto-inutilizar, mas de inserir ambos na rota do presente das latinhas de refrigerante que proliferam em lugares como nas rodoviárias, mesmo que pitorescamente e por necessidade de sobrevivência material.
Assim como ele faz com esses objetos, retirando-os do cesto de lixo para que possam reintegrar-se no mundo dos homens e das coisas, num ritmo contínuo das sofisticadas engrenagens das máquinas de reciclagem, o charrete-taxista, sexagenário, sobrevive no seu ritmo contínuo, a trote de cavalo e das rodas da charrete. Ele impõe sua presença, não deixando que os poucos recursos e seu já ultrapassado (para muitos habitantes das cidades) meio de transporte, sejam engolidos pelo tempo do movimento vertiginoso nem pelos cestos de lixo da História, a qual ainda não conseguiu estancar o fluxo do tempo da velhice sem amparo e dignidade. Os passos calmos, a leveza (ou dificuldade?) de seu abaixar e levantar-se, a inscrição bordada cuidadosamente na sua algibeira, seu olhar que tudo contempla, pareceram-me compor um quadro singular do homem que teima não se anular, malgrado os sinais do (s) tempo (s).
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