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03 de julho de 2007
 

Manifesto Cantigários:

por um projeto cultural desalienado!

Para os que ainda não adquiriram o estranho hábito de salivar toda vez que a mídia estala os dedos.

Vivemos todos globalizados, sob o signo da lógica capitalista, que se traduz na produção de coisas para o mercado e não para as pessoas. Tal configuração se esgota num estreito horizonte do lucro, independente da mercadoria comercializada. Esta estrutura se ancora principalmente nos meios de comunicação de massa que atuam diuturnamente no sentido de criar necessidades de consumo e tal artifício aprofunda cada vez mais a alienação das sociedades, alienando criatura e criador, ou seja, envolvendo nesta engrenagem os manipuladores do sistema que se vêem presos nas próprias teias uma vez que não encontram oferta de produtos (materiais ou do espírito) fora dos moldes do mercado hegemônico. Este fenômeno encontrou na abstração terreno fértil para sua disseminação indiscriminada, pois de difícil e mesmo improvável constatação. Neste sentido, diferentemente do movimento ecológico, as possibilidades ensaiadas por um ecosimbolismo resultaram em um retumbante fracasso e o seu sepultamento se deu de forma discreta, sob o peso avassalador da lógica de caráter lógico-operativo, ou, como diria o poeta Fernando Pessoa, na transformação da realidade numa coisa horrorosa.

A realidade construída e legitimada se baseia em fatores absolutamente inconsistentes, como se estivesse pregada no ar. Ninguém, em sã consciência, consegue justificar o conformismo generalizado e o ritmo de boiada obediente aos ditames da mídia. Sucessos instantâneos, baseados em vazios e estúpidos produtos, que são as mercadorias do espírito, são consumidos acriticamente em quantidades cada vez maiores. Dessa forma, assistimos a transformação das consciências numa imensa lixeira onde despejam cotidianamente os subprodutos de uma arte degradada, mercadorias fuleiras.

Independente do choro e da vela, dos desejos dos apocalípticos e da indiferença dos integrados, a música popular brasileira foi vitimada por um processo avassalador, predatório e virulento.

Historicamente, a música popular brasileira tem na bossa-nova o início do seu processo de emancipação e maturidade e tal estágio atinge o seu ápice com o surgimento da chamada Música Popular Brasileira, capitaneada em seus primórdios, pelos Festivais de Música, fenômeno este que, a partir do modelo estabelecido pelas TVs (Excelsior, Record, Tupi, Rio e Globo), se espalhou por todo o país.

Como tudo que é gerado no sistema capitalista, a Indústria Cultural tem a sua lógica e o seu projeto particulares, e é exatamente este projeto que inviabiliza a possibilidade da existência de alternativas que conduzam a produção cultural voltada para a sociedade como um todo. Neste quadro de insensata submissão ao império de uma lógica de códigos de barras, é que aportamos numa realidade em que mesmo os decanos da MPB (famosos e ricos), salvo poucas exceções, se vêem amesquinhados, sem projeto algum, além de seguir a rotina de produzir e gravar músicas com o fito único de ganhar dinheiro. Cumpre-se desta forma a profecia de Belchior, na qual eles (os nossos mesmos ídolos) "estão em casa, guardados por Deus, contando os seus metais". Projeto artístico/estético algum, um deserto arrasador. Por que não persistiram na utopia generosa e cara?

A história registra a perseguição da ditadura militar às manifestações artísticas, e esta se estendeu e se aguçou sobremaneira sobre a MPB em especial. Tal fato, entretanto, não foi fundamental para a sua decadência e ostracismo. Em alguns episódios, a ação repressiva dos militares até serviu de incentivo e incremento às produções artístico-musicais, motivadas pela insatisfação generalizada. Observe-se que a MPB não só conseguiu sobreviver, mas, produzir uma efervescência cultural consistente. As causas reais que amordaçaram aquele projeto estético-social devem ser buscadas na estruturação do setor da Indústria Cultural, com o aportar aqui nestas plagas das multinacionais do disco que implementaram uma produção e divulgação em escala gigantesca, inviabilizando quaisquer alternativas fora do seu esquema. O domínio dos meios de comunicação de massa, através da institucionalização do jabá, criou um mercado de novas feições, no qual o consumo não mais é norteado pelo gosto individual, mas pela artificialidade e mediocridade.

Surge a convicção de que quem sepultou a MPB, enquanto projeto cultural para o país, não foi a ditadura militar, que buscou censurar as suas manifestações mais radicais, e sim a indústria cultural através das multinacionais fonográficas e seus modelos de estabelecer escalas, que incrementam um itinerário de produção de escombros, o lixo cultural, a mediocratização das obras.

Diante disso, a pergunta síntese é: por que artes, por quais recônditas conspirações estamos condenados a conviver e consumir o lixo, diuturna e insensivelmente, (re)produzido pela Indústria Cultural, sob os imperativos do lucro, senhor cínico e absoluto das consciências e da razão cínica?

Mesmo não sendo algo definido e estipulado por nenhuma lei ou pacto, a MPB tinha em si um projeto cultural para o país, além de ser uma proposta que possibilitava a feitura de obras maduras, criativas, reflexivas e populares. Em tal concepção podem se abrigar todas as formas de expressão musical (samba, choro, maxixe, salsa, toada, guarânias, réquiens, baladas, maracatus, etc.). Isso pode ser facilmente comprovado na enorme complexidade e diversidade de sua produção desde Chico Buarque, Vandré, Edu Lobo e Milton até aos remanescentes extemporâneos como Djavan, Zé Ramalho, Oswaldo Montenegro e outros.

Acreditamos que o projeto estético-social da MPB, a exemplo de uma mina recém-descoberta, foi apenas explorado em sua superfície e necessita ser aprofundada a sua experimentação, seguindo os seus tantos e variados veios mais ricos e promissores. A tal proposta o pessoal do Cantigários se une para dar conseqüência. Não criando tecnologia, mas divulgando canções capazes de seduzir, conscientizar e emocionar pessoas que buscam algo mais além que o toque da sineta para poder salivar.

É sob a inspiração da idéia ou delírio de romper com a postura/compostura de artistas que vendem sabonetes ou plataformas políticas divorciadas e mesmo avessas às suas consciências. O aburguesamento, a assunção do modo consumista/individialista de vida, traz conseqüentemente o abastardamento da sociedade e, por extensão, da arte.

O Brasil é um fantástico produtor artístico, com uma criativa musicalidade consolidada e reconhecida internacionalmente. Mas é de se lamentar um cenário a coisificar a música brasileira, no mais das vezes impondo letras imbecilóides e melodias sofríveis alicerçadas por efêmeros modismos de consumo de altíssima rotatividade.

Não por acaso projetos de qualidade acabam sendo excluídos das gravadoras e meios de comunicação, barreiras apenas superadas pelos que radicalmente se negam a se submeter aos seus ditames... que, de uma maneira ou outra, acabam deformando os seus princípios.

Depois de bem sucedidas estratégia e trajetória de valorização da qualidade na Literatura e de busca de novos talentos, a Editora Guemanisse ousa agora implementar o Cantigários, um projeto musical de qualidade!

Após reunir compositores, letristas, músicos, intérpretes e técnicos de som, mais de 10 (dez) profissionais com extrema criatividade e experiência, a Editora Guemanisse está concluindo a produção de 4 CDs:

1 - Cantigários

2 - Maias e Cavalcantes

3 - Criaturas Silenciosas

4 - Navalhas e Punhais

O projeto Cantigários busca o resgate da fantástica e inestimável produção artística do nosso povo, sem qualquer concessão a gravadoras, meios de comunicação e que tais comprometidos com esse modismo inconseqüente que está por aí - a mutilar tantas e tantas vocações e competências. Esse projeto - seja pelas letras, melodias e músicas em criação - nasce com um compromisso original inarredável: ofertar um projeto musical de qualidade para os deserdados, para os descontentes com a coisificação da Música Popular Brasileira.

Paulo Maia - Mano Ferreira - César Ceará - Marcelo Cavalcante - PC - Fábio Maia - Clarisse Maia - Marcelo Maia - Cassiana Voazem - André Gonçalves - Adão Dom - Rebeca Brandão - Roberta Monçâo - Zé Batera - Paulinho Português - Ricardo Gurgel - Carmélia Alves - Ronaldo Diamante - Midosi - Zé Menezes - Chico Costa - Fausto Caminha - Evandro Terra - Alexandre Guichard - Edson Teixeira - André Prado - Rogério Rebello - Léo Castro - Kátia Andrade - Zealves - William Barreto - Rodrigo Rebello
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Última Atualização ( 11 de junho de 2008 )
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